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O poder da mulher nas urnas: como elas decidem seu voto?

Em relações marcadas por violência e controle, a pressão do parceiro pode comprometer a autonomia política das mulheres.

Por Fashion New Publicado em
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Após mais de 30 anos vivendo em um relacionamento abusivo, a empresária Jaqueline Sousa Bittencourt, de 59 anos, finalmente pôde exercer livremente seu direito de voto, escolhendo um candidato que realmente a representasse.

Mãe de dois filhos e natural de Brasília, Jaqueline optou por ocultar suas crenças políticas para evitar conflitos e retaliações. “Nos dias de eleição, ele me fornecia uma lista com candidatos. Eu era obrigada a votar em quem lhe interessava. Mesmo sozinha na cabine eleitoral, sentia que ele estava observando minhas escolhas”, recorda.

Embora a Constituição Federal de 1988 garanta o sigilo do voto, a experiência de Jaqueline levanta uma questão importante: em um ambiente eleitoral marcado por discursos conservadores, até que ponto as relações interpessoais e a violência de gênero afetam as decisões políticas das mulheres?

A luta pelo voto feminino

Em junho deste ano, o influenciador e jornalista bolsonarista Paulo de Figueiredo declarou durante uma transmissão ao vivo em seu canal no YouTube que as mulheres “votam estatisticamente muito mal”, especialmente aquelas solteiras. Ele também afirmou que as casadas tendem a seguir o voto dos maridos. Essas afirmativas evidenciam como a autonomia política feminina ainda é questionada no debate público.

Segundo Bruna Ghiorzi, psicóloga e doutoranda em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, relações afetivas que envolvem controle e pressão podem minar a autoconfiança das mulheres em suas próprias escolhas, incluindo as políticas. Essa influência não se dá apenas por ameaças diretas, mas também quando suas opiniões são desvalorizadas e constantemente desafiadas.

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A especialista ressalta que o ato de votar não deve ser visto como uma decisão isolada; ele reflete valores pessoais, experiências passadas e visões sobre o futuro. “Quando uma mulher não tem espaço para expressar suas opiniões nas relações que mantém, sua liberdade política é comprometida”, afirma.

Essa falta de liberdade pode resultar em humilhações, ameaças ou chantagens emocionais, além de isolamento afetivo ou restrições financeiras”, acrescenta.

A sexóloga feminista Taynara Maronesi destaca que esse controle sobre as decisões das mulheres faz parte de uma estrutura social enraizada. “Esse fenômeno não surge necessariamente dentro da relação amorosa, mas é sustentado por uma cultura patriarcal que questiona nossa capacidade de pensar e decidir por nós mesmas”, explica, citando também a opressão paterna sobre as filhas como exemplo dessa dinâmica.

O custo da discordância

Ter opiniões diferentes do parceiro não implica automaticamente autonomia; da mesma forma, concordar com ele não significa adesão total às suas ideias. As especialistas argumentam que o essencial é existir liberdade para formular e expressar opiniões pessoais sem temor de violência ou retaliação.

Para Jaqueline, essa liberdade foi negada durante seu casamento, situação que se agravou após as eleições de 2018. “O comportamento dele se tornou mais violento. Ele encontrou um candidato alinhado às suas ideias e meu espaço para opinar diminuiu ainda mais”, relata.

A situação vivida por Jaqueline não é isolada; segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em julho de 2026, metade dos homens se identifica com ideais mais conservadores (direita ou centro-direita), enquanto apenas 44% das mulheres se consideram à esquerda ou centro-esquerda.

Retomando o direito à escolha

Somente após sua separação ela conseguiu retomar a capacidade de pensar com clareza sobre política sem medo. Com apoio dos filhos e auxílio psicológico, Jaqueline conseguiu romper o ciclo de violência que a aprisionava.

Esse suporte lhe permitiu despertar um interesse maior pela política; começou a pesquisar sobre candidatos e entender propostas. “Votar em alguém escolhido por mim trouxe uma sensação imensa de força e independência. Hoje me sinto livre para discutir política; isso é extremamente libertador”, compartilha.

Taynara destaca que após sair de um relacionamento abusivo, muitas mulheres reavaliam suas crenças e descobrem novos interesses que antes eram sufocados. “Isso não significa necessariamente mudar de opinião; trata-se da conquista do direito de sustentar suas próprias posições sem buscar validação externa.”

Neste segundo turno eleitoral, Jaqueline prioriza questões relacionadas ao gênero em sua decisão: “Estou me permitindo votar nesta eleição com a esperança de que meu futuro será melhor. Escapei do feminicídio e desejo ajudar outras mulheres através do meu voto. Diante da urna, temos uma oportunidade singular para manifestar nossas opiniões.”

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