A visão de Pierre Aulas para a O.U.i Paris: de terras francesas ao Brasil

Liderando a O.U.i Paris, uma marca de alta perfumaria do Grupo Boticário que nasceu na França, mas se conecta diretamente com o público brasileiro, Pierre Aulas constrói uma ponte olfativa entre dois universos distintos: de um lado, a precisão técnica e sofisticação do savoir-faire francês; de outro, a luminosidade e frescor brasileiro. Nesta entrevista, o diretor olfativo compartilha insights sobre seu processo criativo colaborativo, a influência das novas gerações na perfumaria e sua visão sobre as principais tendências do mercado.

Pierre Aulas, diretor olfativo da O.U.i
Foto: Divulgação

Você começou na perfumaria sem uma tradição familiar no campo, mas acabou se tornando um nome reconhecido no universo olfativo. Como esse caminho “inesperado” começou?

Na verdade, eu não planejava trabalhar com perfume. Segui uma formação em administração de empresas, obtive um mestrado em marketing e iniciei minha carreira como gerente de produto em uma pequena empresa de cosméticos. Foi apenas quando precisei desenvolver fragrâncias para esses produtos que me deparei com alguns perfumistas. Um deles fez um comentário que mudou meu rumo: “Você tem um olfato muito apurado, mas não reconhece isso porque nunca explorou. Tudo o que você descreve sobre cheiros está correto – você apenas precisa do vocabulário técnico”. Essas palavras ecoaram em mim. Realizei uma série de testes olfativos, consistindo em cinco ou seis provas. Não se tratava de conhecimento, e sim de sensibilidade olfativa. Obtive um bom desempenho, o que me trouxe confiança. A partir daí, mergulhei de cabeça no mundo da perfumaria. Passei cinco anos em Grasse, no sul da França, aprendendo as bases do ofício. Foi lá que minha jornada começou verdadeiramente.

Como a perfumaria se transformou em sua carreira?

Iniciei minha trajetória trabalhando em casas de fragrâncias na França e, posteriormente, tornei-me perfumista freelancer. Ao longo dos anos, desenvolvi fragrâncias para marcas muito diversas, o que foi extremamente enriquecedor. Colaborei por longos anos com Thierry Mugler, Azzaro, Chloé, Marc Jacobs, Tiffany & Co. e Lacoste. Cada uma dessas marcas possuía universos completamente distintos – desde fragrâncias intensas e gourmand até composições florais delicadas, passando pelo sensual e minimalista. Há cerca de seis anos, surgiu a oportunidade de trabalhar com o Grupo Boticário.

Como foi sua experiência ao se tornar diretor olfativo da O.U.i?

Participei de um evento parecido com um “speed dating” de criadores na França, promovido pela O.U.i para selecionar um perfumista para desenvolver a marca junto com eles. De forma interessante, éramos cerca de 15 perfumistas, cada um com apenas 20 minutos para convencê-los de que éramos a escolha ideal. Mais tarde, soube que a seleção foi baseada em um viés emocional. Eles afirmaram: “Não escolhemos o Pierre por seu sucesso profissional, nem por seu discurso técnico. Mas sim porque seus olhos brilham ao falar de perfumes.” Achei incrível. É tão humano, tão latino. No final das contas, toda grande história é uma história humana.

Como é o seu processo criativo na prática?

Na O.U.i, o processo é extremamente colaborativo. Trocamos ideias, criamos o briefing juntos. Eles fornecem uma direção, eu questiono, ajustamos em conjunto. Em seguida, trabalho com minha equipe, debatemos intensamente. Faço ajustes, e apresento novamente. É um processo constante de idas e vindas. Leva entre seis e nove meses para desenvolver uma nova fragrância.

Fragrância Scapin 245 Intense, da O.U.i
Foto: Divulgação

LEIA MAIS: A essência do charme francês está na nova fragrância da O.U.i Paris.

Nas criações das fragrâncias O.U.i, como você equilibra o savoir-faire clássico francês com as preferências olfativas mais contemporâneas – especialmente considerando o público brasileiro?

A O.U.i é uma marca francesa que dialoga com o Brasil, portanto, é crucial encapsular a sofisticação e o savoir-faire francês, mas adaptá-los a uma narrativa significativa para o público brasileiro. Busco uma estrutura mais elaborada, com mais complexidade e camadas. Porém, no momento final do processo, quando estou refinando os detalhes, sempre incorporo algumas “gotas de Brasil”. Um toque de alegria, uma nuance frutada, maior frescor – elementos que se conectam com a energia brasileira. É um diálogo entre esses dois países.

Os brasileiros geralmente preferem fragrâncias mais doces ou florais. Como essa preferência influencia o desenvolvimento de novas formulações?

Para manter a identidade francesa da marca, todas as criações são realizadas na França – desde a formulação até o design do frasco. Essa autenticidade é fundamental. Contudo, compreendo o gosto do público brasileiro. Sei que aqui as fragrâncias tendem a ser mais florais, frutadas e diretas. Assim, mantenho a estrutura sofisticada e potente, mas adiciono esse “toque brasileiro” para ajustar a vibração, sem modificar a identidade essencial.

Se você pudesse desenvolver uma fragrância inspirada no Brasil, qual lugar escolheria?

Fiquei encantado por Paraty. Visitei a cidade anos atrás, antes mesmo de trabalhar com o Grupo Boticário, apenas por lazer. A combinação de natureza e arquitetura histórica, com a água invadindo as ruas, é verdadeiramente mágica. Ao pensar em Paraty, lembro das lojas de cachaça que visitei – experimentamos muitas delas (risos). Além disso, recordo do passeio de barco, das águas verdes – não transparentes, mas verdes – e da alegria que experimentei naquele local. Talvez não seja possível traduzir isso literalmente em uma fragrância, mas a emoção pode ser transmitida. Também passei um tempo no norte de Salvador, em uma vila mais hippie, quase desértica, com casas de madeira entre coqueiros. A sensação de liberdade e simplicidade que experimentei lá permanece vívida em minha memória. Essa, sim, poderia se tornar uma fragrância.

Pierre Aulas no ateliê da O.U.i em Paris
Foto: Divulgação

A perfumaria está cada vez mais relacionada ao bem-estar e à experiência emocional. Como você percebe o papel dos perfumes O.U.i nesse movimento?

Essa mudança é impulsionada principalmente pelas gerações mais jovens. Elas buscam mais do que apenas uma fragrância agradável. Desejam algo que lhes proporcione uma emoção positiva: uma sensação de liberdade, confiança, tranquilidade e segurança. Portanto, somos desafiados a considerar esses aspectos e a selecionar ingredientes que transmitam tais sensações.