Alcione em destaque: uma homenagem à sua trajetória com “Eu sou uma negona de tirar o chapéu

Alcione, com mais de cinco décadas de carreira, se consolidou como um ícone musical e um símbolo de independência feminina. Sua trajetória começou a ser notada em 1972, em uma época em que o reconhecimento para mulheres era escasso.

A exposição Com amor, Alcione sintetiza a rica história da cantora maranhense, que nasceu há 78 anos. Originalmente inaugurada em fevereiro de 2025, na cidade natal de Alcione, São Luís do Maranhão, a mostra está disponível desde sexta-feira (10.07) no Museu das Favelas, em São Paulo, que já recebeu outras exposições notáveis como Racionais MC’s: o quinto elemento, também em 2025.

Com uma coleção de mais de 650 itens do acervo pessoal da artista, a exposição ocupa um andar inteiro do museu. O público pode apreciar fotografias, figurinos usados em apresentações, capas de discos, CDs, fitas cassete e revistas. Entre os documentos expostos está a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil assinada em 1972, onde Alcione é registrada como instrumentista de trompete e cantora popular. A mostra também inclui imagens de santos e orixás.

Parte da exposição com retratos que mostram a evolução de Alcione ao longo dos anos.
Luan Batista

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Na seção dedicada às fotografias, que é um dos destaques da exposição, estão imagens que retratam sua infância e família. Entre as fotos estão registros dela desfilando na Mangueira e ao lado de grandes nomes como Cartola, Clara Nunes, Elke Maravilha, Pelé, Maria Bethânia e Gal Costa. Um destaque especial é uma imagem onde as jovens Alcione e Beth Carvalho aparecem cantando junto à renomada Elizeth Cardoso, uma referência para muitas cantoras de samba da década de 1970.

Após deixar o Maranhão, Alcione se apresentou na vida noturna do Rio de Janeiro no Beco das Garrafas e posteriormente na Blow Up e na Igrejinha em São Paulo. Sua carreira deslanchou em 1975 com o lançamento do primeiro álbum A voz do samba, que trouxe consigo o famoso sucesso “Não deixe o samba morrer”. Desde então, ela lançou diversos sambas e canções românticas marcantes como “Garoto maroto” (1986), “Meu vício é você” (1987), “Estranha loucura” (1987), “Você me vira a cabeça” (2001), “A loba” (2001) e “Faz uma loucura por mim” (2004), entre outros.

Em uma entrevista exclusiva, Alcione compartilha suas experiências sobre ser mulher negra no Brasil contemporâneo, feminismo, fé religiosa, suas escolhas estéticas e sua paixão pela Mangueira. Ela também reflete sobre sua independência pessoal e suas vivências amorosas.

“Nunca fui de levar desaforo pra casa; sempre fui muito direta”

Estamos no Museu das Favelas. Como você se relaciona com esse espaço ao longo da sua vida?

No Maranhão não temos favelas; as pessoas vivem em palafitas. Quando cheguei ao Rio de Janeiro foi a primeira vez que tive contato com favelas. Minha relação começou pela Mangueira; já era mangueirense antes mesmo de chegar aqui ao ver uma ala de baianas numa revista chamada O Cruzeiro. Até hoje estou ligada à escola! Tive um projeto chamado Mangueira do Amanhã para crianças que queriam ingressar na escola assim como o Império Serrano tinha o Império do Futuro. Hoje essa iniciativa ainda existe e muitos dos meninos da bateria principal vieram dessa base.

A exposição apresenta uma seção sobre seus santos e orixás. Qual é sua relação com a religião?

Não sou uma pessoa extremamente religiosa que vai à missa todo domingo; mas acredito em Deus e nos orixás. Aprendi isso com meus bisavós. Meu avô dizia: “Menina, o céu é para quem merece; aqui na Terra vale quem tem”. Certa vez recitei esse verso para Mãe Menininha no Gantois e ela terminou por mim; isso mostra como essa sabedoria ancestral perdura.

A ascensão das mulheres negras atualmente reflete lutas que você já enfrentava há cinco décadas. Como você vê essa mudança?

Crescemos conhecendo os obstáculos presentes nas escolas e na sociedade. Eu sempre soube que precisava enfrentar essas dificuldades. Nunca aceitei desaforos ou deixei que me calassem; sou bastante expressiva. Não vim aqui para impor nada nem pisar sobre ninguém; quero apenas ser eu mesma.

Figurinos da artista evidenciam sua conexão com a Mangueira.
Foto: Luan Batista

Acredita que ser mulher negra hoje é menos desafiador do que quando você começou?

Dificilmente acredito nisso; muitas barreiras ainda persistem neste país. Para as mulheres negras continua sendo complicado enfrentar diversas situações adversas. Antigamente não havia espaço para mulheres no mercado fonográfico; Clara Nunes foi pioneira nesse aspecto seguido por Beth Carvalho – eu vim atrás delas. O mercado era dominado por homens até então; Carmen Costa já cantava sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres.

E quanto ao casamento? Você nunca se casou?

Tive um relacionamento duradouro com um italiano por dez anos e outro com um brasileiro durante três anos. Não sou alguém que muda constantemente; quando algo precisa terminar deve ser feito sem mágoa – eu sigo amizade com eles até hoje. Tive um casamento formal rápido porque algumas pessoas pensam que você passa a ser propriedade delas – isso não funciona comigo.

Você se considera uma referência para outras mulheres negras independentes?

Sempre fui autônoma sem admitir abertamente isso; meu pai me ensinou desde cedo a ter minha própria casa para garantir minha liberdade e autonomia.

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“Tive casamento no papel, mas não durou muito porque a pessoa acha que você é propriedade dela”

Poderíamos classificá-la como feminista?

Nunca pensei muito sobre isso; apenas sei que sou alguém forte e assertiva – tenho autoridade sobre minha própria vida!

Como conquistou essa força num ambiente hostil às mulheres negras?

Meu pai sempre dizia: “Quando encontrar uma porta fechada, bata nela”. Ele tinha muitos ensinamentos valiosos! Minhas irmãs compartilham essa mesma força conosco – todas nós gerenciamos nossas próprias vidas.

E qual é a relação entre seu sucesso como cantora e essa força?

A jornada não foi fácil num mundo dominado por homens; precisamos continuar batendo nas portas! Devemos dialogar com amor e buscar entendimento sem ferir os outros.

No decorrer dos anos 1970 você teve um programa semanal na Globo chamado Alerta Geral, lembrado nesta exposição. Como conseguiu esse espaço? 

Eu apresentava um show chamado Alerta Geral, baseado numa canção homônima de Marku Ribas quando os diretores Walter Clark e Boni assistiram meu trabalho ao vivo e quiseram conversar comigo após o show – eles estavam buscando alguém autêntica como eu!

Registro histórico entre Maria Bethânia e Alcione.
Foto: Arquivo pessoal

A exposição inclui fotos dos bailes debutantes organizados por você na Mangueira do Amanhã. Qual era a importância disso para você? 

Sempre quis participar desse tipo de festa quando era jovem mas meu pai não tinha condições financeiras para isso! Então decidi organizar esses bailes na Mangueira convidando meninas que completavam quinze anos naquele ano – contava até com padrinhos famosos como Tom Jobim!

Sua ausência materna decorre também de questões de saúde (Alcione passou por uma histerectomia nos anos 1970). Se tivesse tido filhos seria diferente ou não era algo importante? ,
Acho que estava destinado a cuidar dos meus irmãos pequenos; se tivesse filhos provavelmente não teria conseguido realizar tudo o que fiz até hoje – sou desconfiada quanto à criação dos meus filhos!...
No passado muitas cantoras enfrentaram dilemas entre carreira ou lar devido às expectativas sociais impostas às mulheres – você desafiou essa norma! Foi escolha consciente ou inevitável? ,
Essa decisão foi inevitável para mim porque amo cantar – música faz parte da minha vida!..
Qual seu critério para escolher figurinos? ,
Tengo uma costureira incrível chamada Sílvia Bevilacqua em São Paulo – ela entende exatamente meu estilo! Eu escolho os modelos através das fotos enviadas por ela!.
E quanto aos brilhos nas roupas? É essencial? ,
Nascí pra brilhar neste mundo – definitivamente não vim pra ficar apagada!.
E quanto aos cabelos? Já usou várias texturas diferentes! ,
No período em que viajei para África me inspirei nas trancinhas locais – sempre busquei inovações estéticas!.
E as perucas? Quantas tem atualmente? ,
Nunca possuí muitas perucas antes mas agora tenho cerca de quinze! Dependo do humor diário pra escolher qual usar!.

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