Daniela Mercury fez sua estreia em um palco aos 15 anos. Naquele dia, ela estava assistindo a uma apresentação de seu amigo, o uruguaio Jorge Zárath, em um bar localizado em Salvador. “Estava lá quando ele me chamou para cantar junto”, recorda em entrevista à ELLE. “Cantei uma música do Geraldo Azevedo.” Ao final da apresentação, os proprietários do bar se aproximaram com uma proposta: queriam que ela se apresentasse semanalmente. “Lembro que respondi: ‘Mas eu não sou cantora’”, conta, rindo.
Avançando para 2026, na manhã da última terça-feira (30 de junho), o Grammy Latino anunciou que Daniela será agraciada com o Lifetime Achievement Award deste ano. Esta distinção é concedida anualmente a artistas que fizeram contribuições significativas à música latina. Apenas cinco mulheres brasileiras receberam este prêmio anteriormente, entre elas Astrud Gilberto em 2008 e Rita Lee em 2022. O reconhecimento abrange obras que vão além de sucessos temporários, construindo legados duradouros.
“Escolhi uma carreira improvável, mas consegui triunfar. A arte vale a pena e a música também”, celebra. Ela relembra sua infância em um lar acadêmico: “Minha mãe era reitora de uma escola de serviço social e minha irmã seguiu por esse mesmo caminho”. No entanto, Daniela revelou um forte interesse pela dança desde nova e acabou se formando nessa área. Posteriormente, teve experiências no teatro e, após aquele dia no bar baiano, percebeu que poderia integrar tudo isso à música. “Cada vivência me trouxe até aqui.”
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Show no Masp, em 1992.
Foto: Divulgação
Aos 60 anos, a cantora e compositora já vendeu mais de 20 milhões de discos ao longo dos seus 26 álbuns lançados e realizou mais de 700 shows internacionais, acumulando diversas histórias memoráveis. Uma delas aconteceu em 1992, quando interrompeu a rotina da cidade de São Paulo ao se apresentar no vão livre do Masp. “Foi algo surreal. Eu não tinha ideia de que meu trabalho na Bahia havia alcançado outras partes do Brasil através do boca a boca.”
Entretanto, mesmo com o reconhecimento nacional, Daniela enfrentou preconceitos ao longo de sua trajetória. “O machismo sempre foi um obstáculo.” Ela relembra momentos em que pessoas da indústria questionavam sua capacidade como compositora. “Cheguei a cogitar criar um heterônimo devido à desconfiança generalizada.” Em outra ocasião, durante uma negociação com um executivo de gravadora, ouviu dele que não se interessava pelas opiniões femininas. “A expectativa era que eu fosse apenas uma mulher bonita sem argumentos.”
“A expectativa era de que eu fosse uma mulher bonita, mas que não tivesse argumentos” Daniela Mercury
Contudo, a artista nunca se deixou abater. “Possuo inteligência e capacidade criativa. Meu trabalho é bem definido e sei o que quero alcançar.” Em um cenário tão hostil para as mulheres, sua atitude destemida foi fundamental para sua carreira. “Sou uma mulher que busca espaço para ser ouvida e não hesito em falar e cantar mesmo quando tentam silenciar-me.”
Além do preconceito relacionado ao gênero, Daniela também enfrentou xenofobia durante sua trajetória musical. “O axé era visto como algo exótico no Sudeste do Brasil. Lembro-me de ter que explicar repetidamente aos jornalistas e gravadoras sobre essa sonoridade.” Ela menciona ainda que o termo axé music foi utilizado pela imprensa inicialmente com conotações negativas. “Havia uma tentativa de desmerecer a música criada sobre o trio elétrico.”
Daniela Mercury no Grammy Latino, em 2007.
Foto: Getty Images
Por isso mesmo, receber o Grammy Latino é ainda mais especial para ela: Daniela Mercury é a primeira artista do axé a ser homenageada dessa forma. E generosamente afirma querer compartilhar esse reconhecimento: “Este prêmio representa um legado coletivo — não é apenas meu — é também do meu povo, do meu estado e dos meus colegas do axé e samba-reggae”. Sua declaração reflete a essência colaborativa desse movimento musical.
Esse aspecto comunitário tem raízes nas tradições afro-brasileiras presentes na capital baiana. Nos anos 80 em Salvador, o axé music surgiu num cenário influenciado pela cultura negra e pela atuação dos blocos afro como Olodum e Ilê Aiyê. Isso explica a intensa base percussiva herdada das tradições do candomblé e dos costumes iorubás e bantu, além da fusão com outros gêneros como pop, frevo, reggae e rock.
Foto inédita do álbum Balé mulato (2005).
Foto: Mario Cravo Neto
O resultado é uma sonoridade rica e complexa. Uma memória marcante para Daniela ilustra essa diversidade; em 1994 ela foi convidada a representar o Brasil em um concerto com líderes ibero-americanos em Miami (EUA). O evento contou com apresentações de Sônia Braga e artistas renomados como Liza Minnelli e Celia Cruz. Durante sua performance da canção “O canto da cidade” (1992), foi acompanhada por uma orquestra sob direção do famoso produtor Quincy Jones (1933-2024) e regida por Lalo Schifrin (1932-2025), conhecido por suas trilhas sonoras icônicas em Hollywood.
No entanto, antes dos ensaios começou a dificuldade; os músicos tinham dificuldade com as complexidades rítmicas da canção devido à sua originalidade.
“Depois de receber o prêmio, vou voltar para Salvador e vou para as ruas fazer um Carnaval em pleno novembro” Daniela Mercury
Essa riqueza rítmica está presente na canção “O canto da cidade”, que encapsula bem o legado construído por Daniela ao longo das últimas quatro décadas. “Quando você toma essa canção como sua própria experiência, ‘o canto da cidade’ torna-se seu”, explica ela sobre a letra escrita na primeira pessoa.
Esse sentimento de pertencimento é central na obra dela. “Minha arte visa elevar a autoestima do meu povo incluindo mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+. Em todos os meus álbuns busco afirmar nossa coletividade.”
Com esse espírito coletivo em mente, Daniela Mercury se prepara para participar da 27ª edição do Grammy Latino marcada para o dia 12 de novembro em Las Vegas. Já tem planos para comemorar após receber o prêmio: “Assim que voltar para Salvador farei um Carnaval fora de época para celebrar isso”, revela animada. “Estamos aqui para brilhar!”
