No dia 8 de maio, Djavan dará início à sua turnê Djavanear 50 anos. Só sucessos em São Paulo. Este evento marcará o começo de uma série de shows que se estenderá por mais nove cidades, culminando em sua terra natal, Maceió. A seguir, apresentamos uma entrevista com o renomado cantor e compositor, originalmente publicada no Volume 22 da ELLE, em dezembro de 2025:
Considerado um dos poucos compositores brasileiros a se tornar um verbo, “djavanear” nasceu após o cantor usar o termo “caetanear” na letra da canção “Sina”, lançada em 1982 (“Como querer/ Caetanear o que há de bom”). Ao interpretar a música, Caetano Veloso criou esse neologismo como resposta à homenagem. Com seus 76 anos, Djavan possui um vocabulário e códigos únicos que refletem sua essência. O termo também é o título da turnê que celebra meio século de carreira e que começará em São Paulo neste mês e encerrará em Maceió em dezembro.
A história dessa trajetória musical começou com o álbum A voz, o violão, a música de Djavan, lançado em 1976 e que traz um toque de samba. Desde então, Djavan lançou 26 discos repletos de clássicos da MPB como “Samurai”, “Linha do Equador”, “Eu te devoro” e “Lilás”. Ele destaca que não faz distinção entre suas obras: “A minha entrega em cada um foi igual”, afirma. “Cada álbum reflete quem eu era naquele momento e as mensagens que transmiti.”
Foto: Bob Wolfenson
O seu disco mais recente, intitulado Improviso, foi lançado em novembro e traz uma seleção de canções inéditas. Entre elas, está a reinterpretação de “O vento”, uma colaboração com Ronaldo Bastos que foi gravada por Gal Costa em 1987 – a artista é reconhecida como uma das maiores intérpretes de suas composições, tendo registrado 13 músicas dele ao longo de sua carreira. Também recuperou a canção “Pra sempre”, que surgiu após um convite do produtor Quincy Jones (1933-2024) para criar uma música para Michael Jackson durante as gravações do álbum Bad (1987). Embora tenha feito a melodia na época, Djavan nunca a enviou ao cantor; no entanto, muitos anos depois ela ganhou letra dedicada a Michael (“Cê foi, mas não foi/ Não saiu daqui”).
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As letras do álbum Improviso abordam temas amorosos, algo característico do trabalho do artista. Contudo, Djavan ressalta que muitas dessas composições não são autobiográficas. “Geralmente não falo sobre mim”, explica. Casado há 28 anos com Rafaella Brunini, pai de Sofia (21) e Inácio (19), ele também tem filhos mais velhos: Flávia (53), Max (52) e João (48), frutos do casamento com Maria Aparecida Viana (1950-2024). Atualmente, Djavan é avô de sete netos cujas idades são próximas às dos filhos mais novos. O musical Djavan: o musical – Vidas pra contar, estreado este ano, narra sua trajetória desde os tempos humildes em Maceió; inicialmente cético quanto à necessidade de uma biografia, ele mudou de ideia ao assistir à produção.
Foto: Bob Wolfenson
No ensaio fotográfico para a ELLE, Djavan se deixou levar pela música de Stevie Wonder (que gravou gaita na faixa “Samurai”, em 1982), revelando uma nova faceta ao dançar – algo que ele começou a fazer somente há cerca de dez anos durante suas apresentações. “Passei a gostar disso; antes era muito tímido e ficava parado no palco sem olhar para o público,” compartilha.
Dias depois do ensaio, o cantor recebeu a equipe da ELLE para um bate-papo no estúdio localizado em sua residência no Rio de Janeiro. Pronto para conversar sobre qualquer assunto que surgisse, ele iniciou a conversa perguntando: “O que você quer saber?”, enquanto se acomodava confortavelmente numa cadeira.
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Você frequentemente fala sobre amor nas suas músicas, mas já mencionou que muitas delas não têm origem autobiográfica. Como você equilibra observação e experiência nesse processo?
Normalmente não escrevo sobre mim mesmo. Procuro abordar o amor sem me referir ao meu próprio amor. De início, não me sentiria confortável falando sobre minha vida nas canções ou dando essa impressão; isso certamente não me levaria ao caminho da criação artística. Considero que a verdadeira arte está na capacidade de imaginar situações com as quais as pessoas possam se identificar.
“Não falo de mim, em geral (nas composições). Tento escrever do amor, mas não do meu amor.”
E tudo ao seu redor serve como fonte de inspiração?
Quem escreve geralmente encontra facilidade para obter inspiração porque vive constantemente observando tudo ao seu redor. Sou profundamente apaixonado pela natureza; essa contemplação foi algo que minha mãe me ensinou desde pequeno. Aprendi muitos nomes de plantas com ela quando era criança e ainda os guardo na memória – mesmo aqueles nomes difíceis em latim como os das orquídeas.
Foto: Bob Wolfenson
A música “Açaí” (1982) reflete essa observação da natureza.
Certo.
Sua mãe é frequentemente mencionada nas suas entrevistas; você descreve Virginia como alguém que criou cinco filhos no segundo estado mais pobre do Brasil. Que tipo de pessoa ela era? Ela influenciou sua musicalidade?
Virginia tinha apenas formação primária (ela trabalhava como lavadeira) mas possuía uma inteligência notável e dignidade inabalável… Sempre demonstrou ética e correção nas atitudes dela; tinha um forte sexto sentido também. Ela previu que eu seria cantor devido à minha vocação para isso; ela foi fundamental na minha vida.
Ela não chegou a ver seu sucesso acontecer?
Nunca presenciou isso após eu me mudar para o Rio; mas sim quando eu ainda estava em Alagoas cantando com a banda LSD, que deu início à minha carreira artística.
No LSD você tocava em diversas fazendas.
Tocávamos onde fosse necessário! A banda tinha como objetivo alegrar bailes e comemorações como aniversários ou eventos políticos.
Conheço Alagoas todo por conta disso! O LSD tinha uma pegada rock’n’roll; tocávamos Beatles além de alguns clássicos brasileiros como Renato e Seus Blue Caps.
Sua mãe tinha receios sobre certos lugares devido ao racismo presente na sociedade; enquanto você sempre incentivou seus filhos a explorarem qualquer ambiente possível. Como você percebe esse contraste?
Acredito que minha mãe estava certa considerando o contexto daquela época. Ela queria proteger seus filhos da hostilidade social porque não os criou para isso. Minha postura é diferente pois venho de outra geração e tenho mais conhecimento agora do que ela tinha naquele momento; entendo que é lutando contra as barreiras sociais que conseguimos superá-las. Não condeno suas atitudes – ela estava absolutamente correta sendo mãe solteira criando cinco filhos negros sob condições difíceis.
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