Atriz Maria Fernanda Cândido brilha em sua estreia solo nos palcos parisienses

Maria Fernanda Cândido interpreta uma personagem-chave em O agente secreto, filme de Kleber Mendonça Filho. Elza ajuda perseguidos políticos, incluindo Armando, interpretado por Wagner Moura, na trama que se passa no Recife da década de 70, em plena ditadura militar.

Mas, além da telona, a atriz se debruça sobre outro projeto, que estreia em Paris, onde vive desde o fim de 2017 com o marido e os dois filhos, levando uma vida “simples”. Em Ballade au-dessus de l’Abîme, ou Balada acima do abismo, Maria Fernanda apresenta seu primeiro monólogo em francês. O espetáculo é um compilado de textos de Clarice Lispector, adaptado por Catarina Brandão. Entra em cena também a pianista brasileira Sônia Rubinsky, com interpretações de Rachmaninoff, Villa-Lobos e Nepomuceno. É um sopro novo numa carreira de 30 anos recheada de novelas, peças e filmes. “Estou pronta para não estar pronta!”, diz a atriz.

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Balada acima do abismo, que foi apresentado no Brasil no ano passado, traz mais um capítulo na história de Maria Fernanda com Clarice. No cinema, ela protagonizou a adaptação de A paixão Segundo G.H, de Luiz Fernando Carvalho (2023).

A atriz apresenta seu monólogo no Théâtre du Soleil, reconhecido como um verdadeiro templo das artes cênicas parisiense. Foi fundado em 1964 por uma trupe de artistas, entre elas a diretora e cineasta Ariane Mnouchkine, que atua até hoje ao lado da companheira, a atriz brasileira Juliana Carneiro da Cunha. O teatro está situado em um lugar tão mágico quanto sua própria história: La Cartoucherie, uma cooperativa de teatros instalada no Parque de Vincennes, no 12º arrondissement de Paris.

Foi lá que Maria Fernanda, ao lado do diretor Maurice Durozier, que entrava vez ou outra na imensa sala onde ensaiavam a peça, recebeu a ELLE para uma entrevista. Nela, a atriz fala de O agente secreto, sua relação com a obra de Clarice Lispector e como se mantém fiel ao seu estilo despojado, avessa às pressões de se manter jovem.

Como foi a transição da peça entre o francês e o português? Duas montagens e duas equipes também diferentes?

Há a montagem brasileira, em que todos os profissionais são brasileiros. E existe a francesa, com outra ficha técnica. São dois espetáculos completamente diferentes, mas ambos baseados no mesmo texto. O que muda é a diferença cultural muito bonita que fica expressa nessas montagens, porque a obra de Clarice sempre traz muita contradição, é como se fosse uma moeda de dois lados: um iluminado e o outro mais sombrio. O diretor brasileiro (Gonzaga Pedrosa) trabalhou o lado mais luminoso. Então, os figurinos são mais fluidos, com referências à dança de Pina Bausch e Isadora Duncan. Há uma leveza, uma coisa etérea e muito iluminada. A direção francesa, como um bom francês que Maurice é, enxerga esse lado mais sombrio de Clarice.

Então vemos duas Clarices nas duas montagens?

Não é exatamente interpretar Clarice, esse não é um trabalho de mimese. Na montagem francesa, a personagem se torna mais presente, existe uma intenção de trazer Clarice para cena. Já na brasileira, não é a Clarice. É uma atriz dizendo aquele texto, utilizando o corpo e o movimento, uma questão de ritmo que contracena com o trabalho do (iluminador) Caetano Vilela, que é muito presente. São realmente duas peças opostas sobre o mesmo tema.

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Como Clarice surgiu na sua vida?

Essas duas montagens são uma consequência de A paixão Segundo G.H. Já tinha um contato com a obra de Clarice. Fui chamada para fazer esse filme em 2008, mas ele só foi rodado em 2018. Nesse ínterim, fiz um trabalho chamado Correio feminino para o Fantástico, com direção de Luiz Fernando Carvalho, em que utilizamos todas as crônicas que ela escrevia para os jornais aos domingos. Eu li A paixão Segundo G.H. em 2002 ou 2003, e quem me deu esse livro foi o Luiz durante as filmagens da novela Esperança (dirigida por ele). Luiz me mostrou vários textos dela e, no final, me perguntou se gostava do material. Claro que respondi que achava maravilhoso. Foi quando ele me deu o livro e escreveu uma dedicatória. Quando fui ler, não pude compartilhar com ele o efeito que esse livro teve em mim, as gravações da novela acabaram e ficamos um tempo sem nos vermos.

E que efeito foi esse?

Ah, foi um dos livros mais marcantes da minha vida. Todo mundo tem os seus, e esse foi certamente um deles. Foi um acontecimento.

Esta é sua primeira peça em francês. Como foi a interpretar em outra língua?

É o meu primeiro trabalho em francês. Quando me mudei para cá, no fim de 2017, já falava francês, mas no cotidiano é uma coisa, fazer uma peça é outra. Tirar o sotaque é impossível e nunca foi algo que me interessou. Preciso trabalhar de uma maneira que o sotaque não chegue em primeiro plano, para que a pessoa não se distraia da obra. Para isso, é um trabalho em conjunto com o diretor.

Como você chegou a esse teatro, um templo da dramaturgia francesa?

Há dois anos, cheguei aqui convidada por Juliana Carneiro da Cunha e Ariane Mnouchkine. A Ariane me permitiu fazer uma experiência de observação. Acompanhei a montagem de Ici sont les dragons, uma peça em russo e alemão. Fiquei aqui com eles, fiz várias oficinas e pedi permissão a Ariane para fazer a montagem com Maurice. Ela me deu a bênção e aqui estamos. É importante dizer que me sinto extremamente honrada com essa oportunidade que o Théâtre du Soleil me oferece.

“É o meu primeiro trabalho em francês. Quando me mudei para cá, no fim de 2017, já falava francês, mas no cotidiano é uma coisa, fazer uma peça é outra”

Qual a sensação, aos 30 anos de carreira, de atuar em um filme que deve concorrer ao Oscar, mas, ao mesmo tempo, começando algo novo no teatro? Há uma emoção nova?

Sim. Estou fazendo isso de uma maneira muito artesanal, com uma equipe muito reduzida. Não tenho um monte de pessoas fazendo tudo para mim. Eu mesma faço, o Maurice faz, e isso exige muita fibra, pois obstáculos aparecem o tempo todo. Esse aspecto é muito valorizado aqui no Théâtre du Soleil, porque você sente que tem propriedade sobre seu trabalho, ele está em suas mãos. Para um artista, isso é fundamental.

Como se deu seu encontro com Kleber Mendonça Filho?

Nos conhecemos em Cannes, em 2019. Ele estava com Bacurau, e eu com O traidor (dirig