Marília Mendonça é homenageada com exposição e filme documental

A trajetória da renomada Marília Mendonça será revisitada em uma exposição que abre suas portas nesta sexta-feira (9 de outubro) no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Intitulada Sentimento louco, a mostra, que se aprofunda na vida da artista cinco anos após sua morte, é acompanhada pelo lançamento da série documental homônima no Prime Video, programada para o dia 16 deste mês. Além disso, uma cinebiografia baseada em sua vida está em desenvolvimento e deverá ser lançada no segundo semestre de 2027.

Com cerca de 500 itens que fazem referência à vida e carreira da cantora e compositora goiana, a exposição audiovisual representa a primeira homenagem desse tipo a um artista oriundo do universo popular da música sertaneja. Em mostras anteriores, o MIS já recebeu exposições sobre ícones como Renato Russo, Björk, Rita Lee e Janis Joplin. A experiência proporcionada por Sentimento louco é projetada para evocar a intimidade e os aspectos pessoais de Marília.

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“É uma honra ver Marília sendo celebrada no MIS, um dos locais mais prestigiados de São Paulo”, afirma Isa Pessoa, responsável pela curadoria da mostra. Ela detalha que a exposição foi elaborada para contar a história biográfica da artista, criando ambientes que simbolizam suas raízes e os espaços que marcaram sua infância. Um exemplo notável é a recriação cenográfica da árvore sob a qual Marília costumava se refugiar para cantar desde os 12 anos. O quarto dela também foi fielmente reconstituído conforme as lembranças de sua mãe.

As salas da exposição têm nomes inspirados nas canções de Marília e incluem temas como Eu sei de cor – Ouro de mina, que aborda suas origens em Cristianópolis (Goiás); A flor e o beija-flor – Quintal da criação, focando no processo criativo; Esqueça-me se for capaz – Quarto, com memórias pessoais; Infiel – Closet, explorando sua identidade visual; Camarim, mostrando os bastidores de sua carreira musical; Minha herança – Universo das palavras, destacando o conteúdo lírico de suas canções; e Fã-clube, que retrata a relação com seu público. A atuação nos palcos é destacada nas seções Show e alô Porteiro – sobre seu primeiro DVD lançado em 2016 – além de Todos os cantos, referente ao disco homônimo que levou seus shows a diversas praças públicas entre 2019 e a interrupção causada pela pandemia.

Looks de shows de Marília Mendonça estão expostos na mostra do MIS.
Foto: Lucas Mello/MIS

“Os visitantes terão uma visão clara das origens humildes de Marília, do ambiente onde ela compunha suas músicas e do significado emocional por trás delas”, explica Nelson Foerster, diretor da Axon Content, produtora colaboradora na realização da exposição. “Estão expostos prêmios conquistados por ela ao longo da carreira, assim como livros favoritos, diários pessoais e até seus primeiros sapatinhos quando bebê”, destaca.

A curadora Isa Pessoa complementa afirmando que “reunimos um acervo riquíssimo proveniente de Goiânia para criar o Closet, onde estão itens memoráveis para o público. Na Sala das Palavras estão diários e cadernos onde Marília costumava registrar seus pensamentos quase diariamente”.

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Esboços de letras da compositora estão expostos na mostra.
Foto: Lucas Mello/MIS

Marília Mendonça na série documental

A série Sentimento louco também mergulha na vida íntima da compositora sob a direção da cineasta Susanna Lira. Conhecida por documentários sobre figuras como Fernanda Young e Clara Nunes e por projetos voltados às causas femininas como Positivas (2009), Lira traz à tona questões sentimentais relacionadas à vida pessoal e carreira de Marília Mendonça além das circunstâncias trágicas que levaram à sua morte aos 26 anos em um acidente aéreo. A série apresenta uma abundância de vídeos caseiros gravados pela própria artista.

Além de explorar a trajetória romântica da artista, a produção também examina o impacto que Marília teve na nova geração de mulheres compositoras na música sertaneja. Ela se destacou por ser mais alinhada com as aspirações populares do que com as ideologias tradicionais do agronegócio brasileiro. O documentário revela sutilmente as resistências enfrentadas por ela devido ao seu novo modelo artístico dentro do cenário sertanejo masculino dominado por preconceitos.

A diretora Susanna Lira durante as filmagens de Sentimento louco.
Foto: Divulgação

Em contraste com as vozes masculinas que expressavam desconfiança quanto ao seu sucesso inicial – “ninguém acreditava porque ela era gordinha” – ou reconheciam rejeições nesse começo de carreira, depoimentos femininos ressaltam apoio incondicional. Amigas e colegas como Maiara & Maraísa manifestam admiração por sua postura forte tanto nos palcos quanto nos bastidores do sertanejo contemporâneo. “Ela não sabia que isso era feminismo”, reflete Luíza Martins enquanto fala sobre Marília.

Durante os shows exibidos na série, destaca-se o coro feminino vibrante das plateias que acompanhavam Marília — um fenômeno simbólico ainda pouco explorado em sua totalidade. “Marília transformou o sertanejo e redefiniu o papel feminino nesse gênero musical. Seu legado transcendeu sua morte precoce e é inegavelmente significativo para a cultura brasileira”, analisa Isa Pessoa.

“Marília transformou o sertanejo e redefiniu o papel feminino nesse gênero musical”, diz Isa Pessoa.

Susanna Lira critica ainda como Marília foi rotulada pela mídia durante sua trajetória musical. “Ela não gostava do termo ‘feminista’, achando machista esta tentativa de encaixá-la em categorias limitantes”. Para Lira, como diretora mulher seria essencial abordar esses desafios enfrentados por Marília em um ambiente dominado por homens onde ela superou barreiras significativas sem perder sua essência revolucionária.

Paula Fernandes gravando seu depoimento para o documentário.
Foto: Divulgação

Susanna reflete sobre a relevância dessa revisão acerca do impacto curto porém intenso deixado por Marília Mendonça entre 2015 e 2021. “Celebrar Marília neste contexto atual é importante num momento marcado pela violência contra mulheres – precisamos de exemplos fortes”. Ela menciona um dos últimos videoclipes lançados por Marília onde questões sobre violência contra mulheres são abordadas diretamente. O projeto Patroas (2020), realizado com Maiara & Maraisa também teve grande repercussão mostrando como quando mulheres se unem são poderosas.”

“Celebrar Marília agora é fundamental num momento marcado pela violência contra mulheres”, completa Susanna Lira.

Os elementos essenciais para entender verdadeiramente o papel desempenhado por Marília entre os anos mencionados estão presentes na exposição do MIS, bem como na série documental e nas letras impactantes compostas por ela. Ao dar voz às diversas experiências femininas frequentemente ignoradas pela sociedade — desde as histórias das mulheres traídas até aquelas solidárias entre si — suas canções abordavam temas universais através das vivências particulares delas.

No segundo episódio da série Sentimento louco, uma frase-chave revela seu entendimento sobre essas personagens complexas construídas ao longo dos anos — “Sempre busco finais felizes para as mulheres”. Essa perspectiva ressoou especialmente entre suas espectadoras desde seu primeiro show em Itaituba (Pará), onde conquistou rapidamente seus fãs numa conexão única com o público feminino.

Sentimento louco: pode ser visitada às terças às sextas-feiras das 10h às 19h; aos sábados das 10h às 20h; domingos e feriados das 10h às 18h no MIS (avenida Europa, nº158) em São Paulo. Os ingressos custam R$50 (inteira) e R$25 (meia-entrada) até o dia 29 de novembro.

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