Dança e Diversidade: A Celebração da Cultura Queer

A cena clubber mundial deve muito ao pioneirismo dos corpos trans e não-binários. Embora essa realidade possa parecer evidente em 2026, em um ambiente frequentemente dominado por normas de gênero e onde a intolerância é usada como instrumento político, é necessário reiterar essa verdade constantemente.

Em 1968, Wendy Carlos revolucionou o cenário musical com o lançamento de Switched-on Bach, uma obra em que reinterpretou as composições de Johann Sebastian Bach utilizando o sintetizador Moog, o primeiro desse tipo disponível no mercado, que ela ajudou a popularizar. Em 1979, a artista assumiu publicamente sua identidade como mulher trans. Nos anos seguintes, consolidou-se como uma das compositoras mais relevantes do cinema global, criando trilhas sonoras memoráveis para filmes como Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980), ambos dirigidos por Stanley Kubrick, além do icônico Tron (1982).

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Enquanto isso, em Chicago e Nova York, comunidades marginalizadas transformavam espaços abandonados em vibrantes pistas de dança, onde faixas da era disco eram remixadas com sintetizadores e as primeiras baterias eletrônicas. Essas festas foram fundamentais para o surgimento da house music na década de 1980, servindo como refúgios de liberdade que abriram caminho para a cultura rave contemporânea.

No Brasil, os bailes black começaram a dar vida ao que se tornaria os bailes funk, que se destacaram por inovações significativas na música nacional nas últimas décadas.

A celebração dessa herança requer um olhar atento para aqueles que continuam a desafiar as normas na atualidade. A seguir, apresentamos oito artistas notáveis do Brasil e do mundo que têm estado à frente das pistas nos últimos anos. Embora este seja apenas um pequeno recorte da vasta gama de artistas trans e não binários que moldam a música eletrônica em 2026, eles são fundamentais para compreendermos o presente e nos inspirarmos para o futuro.

BADSISTA

Rafa Andrade, conhecido na cena musical como BADSISTA, é um dos grandes nomes da sonoridade underground brasileira na última década. Ele mistura influências da música eletrônica global com referências afrodiaspóricas da música periférica nacional. É responsável pela produção de faixas icônicas como Pajubá (2017), de Linn da Quebrada, além de colaborar com artistas como Deize Tigrona, Jaloo e Jup do Bairro. Com quase 15 anos de carreira, BADSISTA realiza sets memoráveis que transitam entre momentos introspectivos e explosões de alegria, mesclando novidades com referências clássicas da eletrônica mundial. Seu álbum solo de estreia, Gueto Elegance (2021), revelou sua maturidade artística e foi seguido pelo impactante EP CUTEBOYZ (2025). As imagens promocionais deste EP mostram BADSISTA desafiando estereótipos ao aparecer em uma academia de lutas junto a outros homens trans.

KIM PETRAS

Kim Petras tem se destacado como uma das vozes mais intrigantes do pop internacional na última década. Crescendo dentro da cultura eletrônica e influenciada pelo eurodance dos anos 90 e pelo electroclash dos anos 2000, Kim liderou uma campanha durante sua adolescência para permitir que jovens trans pudessem realizar cirurgias afirmativas na Alemanha. Aos 16 anos, conseguiu autorização para seu procedimento cirúrgico. Desde então, lançou projetos cultuados como a mixtape de Halloween Turn off the light (2020) e a série de EPs com temática sexual provocativa chamada Slut pop. Em maio deste ano, apresentou seu quinto álbum intitulado Detour, elogiado nas redes sociais por ser um marco no seu potencial artístico finalmente alcançado.

PAULETE LINDACELVA

Em maio passado, Paulete lançou o EP Filha de Abya Yala Herdeira de Kemet, o fechamento de uma trilogia iniciada com Guabiraba Chicago (2024) e seguida por Ácido Brasil (2025), onde explora a relação entre elementos ancestrais e a sonoridade eletrônica moderna. Naturalmente conectada tanto à tradição musical nordestina quanto à cena clubber local em Recife, Paulete apresenta uma visão única sobre o futuro da música eletrônica brasileira. Reconhecida por seus sets vibrantes em importantes eventos eletrônicos do país, ela foi indicada DJ do Ano no Prêmio Multishow em 2024.

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SOPHIE

Imaginar a música pop em 2026 sem a contribuição da escocesa SOPHIE é quase impossível. Junto com A.G. Cook e Danny L. Harle no selo PC Music, ela foi uma das criadoras do gênero conhecido como hyperpop, caracterizado pela fusão entre timbres futuristas e elementos clássicos do pop dançante. O sucesso desse estilo foi consolidado com o álbum Brat, lançado por Charli XCX em 2024. Inicialmente mantendo-se distante dos holofotes, SOPHIE revelou seu rosto apenas no clipe “It’s okay to cry”, faixa principal de seu único álbum completo lançado enquanto estava viva, chamado Oil of every pearl’s un-insides (2018). Sempre crítica à estética contemporânea enquanto celebrava direito à reinvenção pessoal através da tecnologia, SOPHIE faleceu tragicamente em um acidente em 2021 aos 34 anos.

VITA

Após deixar a dupla Irmãs de Pau – formada com Isma entre 2021 e 2025 – muitos fãs aguardavam ansiosos pela estreia solo da cantora Vita. A expectativa era alta após três álbuns repletos de letras ousadas e críticas políticas acompanhadas por humor ácido. A separação coincidiu com o sucesso estrondoso da canção “SEQUÊNCIA CUNT”, colaboração com Pedro Sampaio e Clementaum. No entanto, Vita surpreendeu ao lançar Vita’s House, seu novo álbum lançado em abril deste ano. Nascida em Minas Gerais mas criada em São Paulo, Vita reúne uma equipe impressionante de produtores brasileiros para mesclar funk, house e outros estilos dançantes neste trabalho que combina diversão com profundidade artística.

ARCA

Alejandra Ghersi Rodríguez lançou seu primeiro álbum sob o nome Arca intitulado Xen, em 2014 já acumulando colaborações com artistas renomados como Kanye West no experimental Yeezus, lançado em 2013. A produtora venezuelana rapidamente se destacou por criar um estilo singular dentro da música eletrônica experimental ao desconstruir batidas e samples que levam os ouvintes a dançar sem entender completamente sua essência emocional. Tornou-se parceira criativa de Björk logo após isso e lançou uma série chamada Kick, explorando sua própria transformação através da arte entre 2020 e 2021 – visível nas capas onde aparece adornada com próteses mecânicas em cenários futuristas. Recentemente fez parte do projeto audiovisual para promover o novo álbum de Madonna chamado Confessions II, previsto para ser lançado em 2026.

MISS TACACÁ

Miss Tacacá traz consigo uma espontaneidade marcante tanto na função de DJ quanto na produção musical. Sua leveza contrasta com uma inquietude criativa evidente nas suas produções melódicas — especialmente no remix divertido da canção “Vai malandra”, tocada por Anitta durante sua apresentação no festival Global Citizen realizado no Pará em 2025 durante a COP-30. Essa faixa também marcou sua estreia como DJ quando produziu sua própria festa ao completar 18 anos. Atualmente residente em São Paulo, ela tem se tornado referência na nova cena eletrônica amazônica onde combina ritmos pesados com influências do tecnobrega numa experiência sonora única que já levou seus shows até lugares icônicos como o Berghain em Berlim durante o CTM Festival.

HONEY DIJON

Desde que seu set viralizou durante o Sugar Mountain Festival realizado em Melbourne em 2018 , Honey Dijon tornou-se um ícone global . Natural da cidade americana de Chicago , ela não só preserva as raízes do house music local , conhecida por suas batidas envolventes , mas também busca lembrar seus fãs sobre as origens políticas desse gênero . Sua carreira inclui colaborações notáveis com grandes nomes do pop como Beyoncé e Dua Lipa , além de parcerias alternativas com Robyn e Jamie xx , sempre apoiando novos talentos como Channel Tres . Neste ano , Honey lançou seu terceiro álbum intitulado The Nightlife , apresentando colaborações com diversos vocalistas . Ela também participou do curta-metragem promocional para o novo álbum de Madonna chamado Confessions II .

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