Pomme compartilha sua jornada musical, identidade e estreia no palco brasileiro

Desde há quase dez anos, Pomme costuma repetir para sua equipe: “Precisamos ir ao Brasil”. A cantora francesa, que interage com fãs em português nas redes sociais e possui admiradores que a seguem desde o seu álbum de estreia, lançado em 2017, sempre sentiu que havia um público ávido por sua música do outro lado do Atlântico. Este tão aguardado encontro finalmente ocorrerá. No dia 26 de maio, ela se apresentará pela primeira vez no Brasil, mais especificamente em São Paulo – os ingressos já estão disponíveis aqui. “As pessoas no Brasil ouvem minha música há tanto tempo. Quero aproveitar este momento não apenas para tocar, mas para realmente me conectar com elas”, afirma em entrevista à ELLE.

Conhecida como Claire Pommet, a artista emergiu na cena independente desde muito jovem e rapidamente conquistou atenção pela sua habilidade de fundir chanson française, folk, música clássica e pop alternativo em composições intimistas. Seu álbum de estreia, À peu près (2017), foi bem recebido pela crítica; no entanto, foi com Les failles cachées (2019) que solidificou sua posição no cenário musical. Em seguida, lançou Consolation (2022) e Saisons (2024), aprofundando ainda mais sua estética melancólica e minimalista, que também é uma marca registrada de suas apresentações.

 

 

Em suas performances solo, alternando entre guitarra, harpa e piano, Pomme cria um ambiente que se assemelha a conversas íntimas com o público. “Para mim, não é exatamente um show. É como compartilhar um momento em uma sala com outras pessoas.”

Ela enfatiza que prefere esse estilo mais íntimo por permitir maior liberdade durante as apresentações. “Converso bastante nos shows, faço piadas e me mostro vulnerável. E gosto do fato de estar sozinha no palco, pois ninguém espera eu terminar de falar antes de retomar a música”, brinca.

A conexão emocional que estabelece com seus espectadores é resultado de uma trajetória marcada por inseguranças. Embora hoje seja uma das artistas mais reconhecidas da sua geração fora da França, Claire revela que levou anos até conseguir afirmar publicamente seu desejo de ser cantora.

“Quando somos crianças, é normal dizer que queremos cantar. Mas aos 12 anos, na escola, as pessoas te olham estranho. Fiquei envergonhada”, recorda. “Não vinha de uma família ligada à indústria musical e não conhecia ninguém nesse meio. Achava que era impossível. Mesmo assim, a música sempre fez parte da minha vida. Minha mãe dizia que eu era louca porque cantava no tom certo desde muito nova.”

 

A cantora Pomme faz show pela primeira vez no Brasil.
Divulgação

Apesar de seus pais não serem músicos profissionais, a artista cresceu em um lar onde a música era valorizada. Ela estudou teoria musical por dez anos em um coral infantil e aprendeu a tocar violoncelo. “Na época, eu detestava teoria musical. Mas hoje percebo o privilégio disso; consigo tocar vários instrumentos com naturalidade.”

O início de sua carreira foi quase artesanal. Ainda adolescente, começou a postar covers no YouTube e buscava oportunidades para cantar em bares na cidade de Lyon antes de se mudar para Paris. “Fazia tudo da maneira tradicional; ia aos shows e conversava com as pessoas dizendo: ‘Oi, tenho 16 anos e quero me apresentar’.”

Curiosamente, Pomme só passou a se afirmar como cantora publicamente quando já conseguia viver financeiramente da música. “Nunca disse ‘quero ser cantora’. Quando comecei a falar isso já estava atuando profissionalmente nesse campo. Antes disso, dizia que queria ser professora de inglês e trabalhar com crianças – o que também era verdade.”

 

 

Se a construção da carreira foi gradual, sua relação com a identidade como mulher sáfica revelou-se ainda mais complexa. Crescendo em uma família cristã e em um ambiente conservador politicamente inclinado à direita, Pomme conta que cresceu acreditando existir apenas uma forma possível de viver. “Estava cercada pela heterossexualidade e o que era considerado normal. Durante muito tempo pensei que precisava ser assim também.”

“As pessoas encontravam conforto nas minhas músicas antes mesmo de eu conseguir encontrar isso em mim.”
Pomme

Foi somente durante o ensino médio e ao ter contato com pessoas LGBTQIAPN+ que começou a confrontar seus próprios sentimentos, mesmo resistindo inicialmente a isso. “Acho que eu mesma tinha um pouco de homofobia internaizada. Ficava irritada porque não me permitia pensar sobre isso. Quando tive minha primeira namorada aos 19 anos, ainda não me sentia confortável”, relata. “Passei grande parte da vida desejando ser normal – queria ser heterossexual, ter filhos e levar uma vida comum. Mas ninguém é realmente normal.”

Essa vivência influenciou diretamente sua obra musical. Ao começar a compor canções sobre amor entre mulheres aos 20 anos percebeu que estava criando um espaço raro dentro da cena musical francesa contemporânea. “As pessoas encontravam consolo nas minhas músicas antes mesmo de eu conseguir encontrar isso dentro de mim mesma”, explica sobre sua conexão com a comunidade LGBTQIAPN+.

Enquanto suas letras tornavam-se cada vez mais pessoais e confessionais, sua música também começou a atravessar fronteiras culturais significativas. Pomme atribui parte desse sucesso à intensa interação que manteve nas redes sociais durante os primeiros anos da carreira. “Cresci junto à internet; sou até meio alérgica às redes sociais agora! Mas quando tinha vinte e poucos anos era muito ativa e mantinha diálogos frequentes com as pessoas.”

Nos últimos tempos, colaborações com artistas renomados ampliaram seu público globalmente — incluindo parcerias com Coldplay e Stromae — além de uma participação na série Arcane da Netflix inspirada no game League of Legends. Contudo, o Brasil permanece como algo especial para ela. “Recebo comentários de brasileiros há tanto tempo que não consigo fingir surpresa por finalmente estar indo ao país – sinto como se tivesse uma família aí sem nunca ter conhecido essas pessoas.”

 

 

 

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