Inhotim celebra duas décadas com exposições inéditas e instalação monumental

Inhotim já atingiu a maioridade. O ano de 2026 celebrará duas décadas desde sua inauguração oficial. Ao longo desses 20 anos, o espaço que combina arte e botânica, localizado em Brumadinho (MG), se consolidou como um dos museus a céu aberto mais relevantes do planeta, além de ser o maior da América Latina. Com uma área de 140 hectares e aproximadamente 4 mil espécies de plantas, o parque-museu apresenta obras de renomados artistas como Yayoi Kusama, Olafur Eliasson, Tunga (1952-2016) e Hélio Oiticica (1937-1980), entre mais de 200 criadores.

No início deste ano, Inhotim foi destacado pelo The New York Times como o único destino brasileiro imperdível para visitar em 2026. Para dar início às comemorações, no último sábado (24.04), o espaço lançou seu calendário festivo com a abertura da primeira panorâmica de Dalton Paula, uma exposição do artista davi de jesus do nascimento e uma obra inédita de Lais Myrrha.

LEIA MAIS: 8 exposições em São Paulo para visitar em maio

Dalton Paula
Foto: Jhony Aguiar



Em setembro, durante as celebrações do aniversário do museu, será realizada uma retrospectiva especial sobre seus 20 anos. No mês seguinte, a galeria dedicada a Cildo Meireles – uma das mais visitadas do local – será reaberta após reformas e ampliação, trazendo novamente a instalação sonora The murder of crows (2008) de Janet Cardiff & George Bures Miller, composta por 98 alto-falantes.


Fanfarra, de Dalton Paula
Foto: Icaro Moreno

Dupla cura, de Dalton Paula

Com curadoria de Beatriz Lemos, a exposição reúne 100 obras do artista brasiliense, que completará 30 anos de trajetória em 2027 e participará da Bienal de Veneza em 2024. Suas peças estão presentes em acervos como o do MoMA e também no Masp e na Pinacoteca de São Paulo. Além disso, ele foi premiado com o Chanel Next Prize. A mostra inclui instalações, fotografias, pinturas e vídeo-performances que abrangem diferentes fases da sua carreira – algumas delas foram retiradas diretamente das paredes da casa materna do artista, conforme revelou Júlia Rebouças, diretora artística do Inhotim –, além de novas criações encomendadas pelo próprio museu.

A pintura Fanfarra, com impressionantes 60 metros de largura e retratando exclusivamente jovens negros, inicia a exposição. Por meio de suas obras, Dalton Paula explora a diáspora africana e recria narrativas históricas enquanto aborda saberes ancestrais e práticas comunitárias. Obras que recriam capas antigas de enciclopédias trazem suas interpretações que evocam conhecimentos populares. “Dalton Paula é um precursor na construção visual que transformou a arte contemporânea brasileira”, afirma Beatriz.

Em parceria com Ceiça Ferreira, ele fundou em 2021 o Sertão Negro, um espaço localizado em um quilombo em Goiânia que integra ateliê e residência artística com atividades comunitárias; este projeto foi destaque na 36ª Bienal de São Paulo. “Sem dúvida alguma, é um dos gestos artísticos mais audaciosos da contemporaneidade”, complementa a curadora. Durante a abertura da mostra, Dalton contou com a presença das escritoras Sueli Carneiro e Conceição Evaristo e trouxe o coral do Sertão Negro para se apresentar ao lado do coral da Escola de Música do Inhotim. “A música é para mim a linguagem mais poderosa”, afirmou ele.

LEIA MAIS Rubem Valentim no MAM Rio: mostra revisita cidades marcantes na trajetória do artista


Foto: Icaro Moreno

Tororoma, de davi de jesus do nascimento

O jovem artista davi nasceu há 29 anos em Pirapora (MG), às margens do Rio São Francisco; sua obra nos transporta para sua terra natal. Na entrada da galeria localizada em uma casa campo está exposta uma carranca esculpida por Mestre Expedito – um símbolo espiritual usado por pescadores para proteger suas embarcações – refletindo seu trabalho preservacionista sobre essa arte tradicional.

Ao entrar na galeria, somos recebidos por um espelho d’água evocando um sorvedouro; isso remete à história pessoal do artista relacionada ao afogamento da mãe dele, lavadeira por profissão. As paredes são adornadas com falsos escorpiões enquanto o chão é coberto por pinturas feitas com tons terrosos. Em uma vídeo-performance gravada nas grutas mineiras, Davi se contorce no chão junto a um peixe – sendo ele filho de um pescador.

A produção artística de davi já foi destaque nas páginas da ELLE e na exposição Panorama da Arte Brasileira realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo; sua obra abrange desenho, fotografia e escrita voltada à divulgação da cultura ribeirinha. A curadoria desta exposição faz alusão ao trabalho do conterrâneo Guimarães Rosa e é assinada por Deri Andrade.


Foto: Icaro Moreno

Contraplano, de Lais Myrrha

Um dos locais mais altos dentro dos vastos terrenos de Inhotim foi escolhido para abrigar a escultura monumental da artista mineira Lais Myrrha. Com uma área total de 250 m² e participação na Bienal de São Paulo em 2016, essa obra foi erguida com auxílio técnico especializado devido ao desnível do terreno.

A instalação Contraplano estabelece uma conexão direta com o edifício projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade em Belo Horizonte; ela mescla concreto às formas sinuosas características do arquiteto num diálogo harmônico que permite diversas perspectivas sobre a paisagem circundante enquanto oferece sombra aos visitantes. “Muitas obras externas aqui no Inhotim não convidam as pessoas a permanecerem; eu queria criar algo onde as pessoas pudessem relaxar ou até mesmo não fazer nada”, explica a artista que se inspirou na marquise do Parque Ibirapuera também projetada por Niemeyer.

A criação de Lais contrasta com grande parte das obras monumentais presentes no museu-parque que normalmente são realizadas por artistas masculinos ou estrangeiros.

Inhotim: Rua B, nº 20 – Fazenda Inhotim, Brumadinho – MG. O local está aberto às quartas-feiras até sextas-feiras das 9h30 às 16h30; nos sábados e domingos das 9h30 às 17h30 (durante janeiro e julho também abre às terças-feiras). Os ingressos custam R$65 (inteira) ou R$32,50 (meia). Para mais detalhes sobre as exposições clique aqui. As mostras Dupla cura e Tororoma estarão disponíveis ao público pelos próximos três anos.

Bruna Bittencourt viajou para Brumadinho a convite do Instituto Inhotim

LEIA MAIS O que esperar do pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2026