“A revolução musical de Luísa Sonza: a nova bossa que conquistou o público”

Luísa Sonza atende à ligação de cara lavada, com o cabelo solto, usando um chapéu de crochê. Saber disso é relevante porque essa imagem diz exatamente onde a cantora está, tanto no âmbito pessoal quanto na carreira: vivendo de forma leve e tranquila, com vista para o mar, ouvindo bossa nova. Ou melhor, fazendo bossa nova.

Depois do sucesso de seu último disco, Escândalo íntimo (2023) – que levou Luísa ao topo das paradas, mas também a um lugar de superexposição, com seus relacionamentos ganhando tanto os holofotes quanto suas canções –, ela desacelerou. Ficou mais de um ano sem lançar singles, diminuiu a presença na mídia e nas redes sociais e passou a manter tudo de forma mais privada.

É desse momento que nasce seu projeto mais intimista até agora: o disco Bossa sempre nova, com lançamento marcado para o dia 13 de janeiro. Desenvolvido em parceria com duas lendas da música brasileira, Toquinho e Roberto Menescal, o álbum reúne regravações de clássicos do gênero, incluindo “Consolação”, afrosamba lançado em 1963 por Baden Powell e Vinicius de Moraes, além de uma faixa autoral de Luísa.

O projeto é o quarto disco lançado pela artista, mas ela o encara como algo à parte de sua discografia. “Ele é tão único que eu queria que tivesse um momento só dele”, revela, confirmando que o próximo álbum oficial – provisoriamente chamado por ela de “LS4” – também já está gravado.

No bate-papo a seguir, Luísa conta detalhes sobre a gravação de Bossa sempre nova, compartilha reflexões sobre a vida longe dos holofotes e, claro, entrega alguns spoilers sobre o próximo lançamento.

Capa do novo álbum de Luísa Sonza, Bossa sempre nova.
Foto: Divulgação

Leia mais: Beauty chat: Luisa Sonza

Bossa sempre nova parece, à primeira vista, um desvio na sua trajetória. Em que momento você sentiu que esse álbum precisava existir?

Sempre tive vontade de lançar algum projeto que tivesse mais da bossa nova ou da MPB, mas eu não sabia exatamente o que. E, com “Chico” (faixa do disco Escândalo Íntimo), portas muito importantes dentro da música brasileira foram abertas para mim. Há dois anos, comecei a trabalhar no meu quarto álbum que, diferentemente do anterior – gravado de forma intensa em poucos meses –, foi sendo construído aos poucos, em vários lugares do mundo: no Brasil, na Europa, em Los Angeles, na Coreia. Em todo esse processo, a bossa nova aparecia como algo latente. Em alguns momentos, cogitei trazer o ritmo para esse novo disco, mas senti que o conceito dele fugia desse registro. Primeiro, surgiu a ideia de fazer uma jam ao vivo com Roberto Menescal. Mas, então, veio a vontade de criar um projeto maior. Entendi que a bossa precisava de um momento só dela. Quis fazer um álbum de regravações – e acabou entrando também uma inédita minha, que originalmente seria do LS4. Esse álbum é bossa pura!

A bossa nova carrega uma ideia de intimidade, de escuta atenta. O que esse gênero permite que talvez não aconteça com o pop?

A intensidade na leveza. Sempre transitei por muitos ritmos — sertanejo, piano e voz, MPB, pop, funk —, mas a bossa me traz um lugar mais maduro que é muito novo. Descobri a bossa nova como um lugar de identificação artística mais tarde, mas que tem tudo a ver com o momento que eu estou vivendo no último ano: com mais leveza, mais calma. Passei anos trabalhando no caos e isso se traduzia na minha música com intensidade o tempo todo – mesmo quando era só piano e voz, como em “Penhasco” (faixa do disco Doce 22), era tudo muito intenso, no grito. Eu sou uma pessoa intensa fazendo música. Agora, é como se estivesse surgindo uma Luísa mais calma, mais estável, que conversa menos com o externo e mais com o interno — e com a vida fora do trabalho, porque eu trabalho sem parar desde os 7 anos. Foi a primeira vez que senti isso.

A Bossa Nova também carrega um imaginário muito masculino. Como foi ocupar esse território sendo uma mulher jovem, contemporânea, com outra bagagem?

Foi muito gostoso trazer a minha leitura para essas músicas — minhas escolhas de interpretação, de entonação, de projeção de voz. Trazer protagonismo para uma voz feminina, inclusive em músicas que falam de musas, de mulheres. Isso tem um significado importante. Além disso, estar ao lado de duas lendas como Toquinho e Roberto Menescal, com tanto respeito e parceria, foi algo raro na minha vida. Eu sinto que trabalhei a vida inteira para chegar a esse momento. A grande chave foi a música — ela nos une. Eu me considero, acima de tudo, uma intérprete. Acredito muito nesse lugar da interpretação, de cantar a palavra, de contar uma história, por isso gosto tanto de Elis Regina e Rita Lee. No começo, tive receio que os dois enxergassem a música de forma muito técnica. O que eu sei que é importante, mas, para mim, a interpretação vem antes. E, logo nas primeiras conversas, percebi que eles enxergavam a música da mesma forma que eu. Foi muito bonito. A sinergia foi tão grande que nunca gravei algo tão rápido.

Só de ler os comentários deles no seu anúncio do álbum, dá para sentir o carinho deles por você e pelo projeto.

É de arrepiar! A gente vai lançar episódios no YouTube mostrando esse processo, porque as gravações ficaram lindas demais. A bossa nova é muito minuciosa – tudo é pensado. Foi lindo ver essas lendas criando arranjos com tanta delicadeza. A gente levou essa amizade para fora do estúdio também. Eu levava o Jobim, um dos meus cachorros, para o estúdio, e eles ficaram apaixonados. Aí o Menescal falou que o próximo animal que eu adotasse tinha que ter o nome dele – e agora eu tenho um gatinho chamado Menescal! Espero que o Toquinho não fique com ciúmes, porque tenho dez animais, não posso ter mais!

Luísa Sonza e Roberto Menescal em imagem de divulgação do novo álbum.
Foto: Pam Martins

Você está lançando um álbum de bossa nova numa época de pré-Carnaval, o que caminha na contramão do resto da indústria. Como foi essa decisão?
Estou fazendo o que eu acredito ser o meu momento agora. Sempre quis ser mainstream e continuo querendo. Mas isso não pode ser vendido, precisa ser natural. Carnaval tem todo ano e não acredito em passar por cima do meu desejo para atender à indústria. Eu falo isso de um lugar privilegiado, eu sei. Mas eu já me provei de muitas maneiras. Já vivi muitos momentos em que precisei correr atrás de números, aproveitar datas. Isso faz parte. Mas agora, depois de quase dez anos de carreira, posso escolher. Quem tem que moldar a indústria somos nós, artistas – não o contrário. Claro que a gente negocia, isso não é um problema. Eu vim de banda de casamento, eu sei o que é ralar. Mas hoje eu posso escolher. E se eu posso, por que não?

Um disco de bossa nova parece pedir um ambiente mais intimista