Exposição em Londres celebra a trajetória de Gianni Versace

Luxo, drama e poder. Londres recebe uma afetuosa retrospectiva dedicada a Gianni Versace. Instalada nos túneis industriais do The Arches, junto à London Bridge, a exposição exibe até março mais de 450 peças originais, em diferentes mídias — desfiles, croquis, vídeos, e roupas, naturalmente, o segmento mais impactante da exposição.

É uma celebração aos tempos do excesso como linguagem estética, pertinente nos tempos caretas em que vivemos. Mostra, desde os anos 1980 até o fim dos 1990, as inovações das silhuetas, os prints digitais, as medusas douradas, as muitas correntes, o couro, os pins e o bondage que materializaram o estilo que consagrou a marca.

De muitas maneiras, faz mais compreensível os desdobramentos da cultura Versace proposto por seu novo estilista, o também italiano Dario Vitale, em sua estreia, que dividiu opiniões e provocou celeuma na temporada verão 2026.


Versace transformou a moda em espetáculo e em amor — à moda, à vida. Por isso o choque de todo o planeta diante da notícia e das condições de sua morte, assassinado em frente à sua casa em Miami, em julho de 1997. Agora, 28 anos depois, esta mostra quer apresentar, sobretudo para as novas gerações, que não o conheceram de perto (sua energia, sua bondade, seu carisma e talento) sua obra definidora de seu tempo.

Vitale traz uma coleção sexualizada, jovem, fresca, usável e comercial (talvez até demais, disseram algumas críticas). E parte de um aspecto de “realness” há muito ausente da Versace. Medusas para quem precisa.

Made in Italy

A mostra em Londres toma como partida o recorte do made in Italy, como se convencionou chamar o movimento de valorização do fazer italiano e suas expertises. Nas décadas de 1960 e 1970, Milão tornava-se um centro de design industrial moderno. Foi só no final dos anos 1970 que esse desenvolvimento se espalhou para as indústrias têxtil e da moda, embalado por uma combinação de mão de obra qualificada, uma indústria têxtil de médio porte e uma cena jovem de designers. 

Gianni era um deles, experimentando novas tecnologias no têxtil e em estratégias inovadoras para a época, como a conexão com o universo da fama, do pop e das celebridades. Até então, nenhum outro estilista italiano havia trazido suas raízes e sua herança tão firmemente no centro de sua obra. E ele abraçou até mesmo suas origens de uma região do sul do país, sem tradição de luxo y riqueza.

Look da coleção de estreia de Dario Vitale à frente da Versace
Foto: Divulgação

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Gianni utilizou em seu trabalho motivos da história cultural italiana, como os padrões neobarrocos, da antiguidade clássica e motivos cristãos, tanto para a moda quanto para o design de interiores. Vitale interpreta esses símbolos de forma iconoclasta, remixada e, por isso, moderna.

A posição de sua própria famiglia, e a presença de vilas e residências suntuosas (como a em que ele vivia, quando morreu) reforçavam a conexão com a italianidade e sobrevivem até hoje no imaginário da marca. Na Versace de Vitale, primos e primas da pá virada encaram a tradição familiar, não sem uso de rebeldia. Chegou a nova geração, justamente sob as mãos do primeiro ser humano a falar de Versace sem ser alguém do próprio clã Versace. Vitale faz a tradução contemporânea deste verdadeiro dialeto. São tempos de airpods com inteligência artificial, em versões simultâneas de qualquer idioma.

Na mostra, looks celebrizados por Naomi Campbell e Kate Moss ganham contornos de relicário pop. Entre eles, o icônico vestido preto usado por Lady Di em Miami. Mas é o paredão de camisas pertencentes à coleção pessoal de Elton John que já conquista nossos corações, logo à entrada do percurso expositivo.

Versace, verão 2026
Foto: Divulgação

Sucesso

A mostra também aborda o contexto em que Gianni emergiu. A chamada estética City, com alfaiataria de tecidos pesados e silhuetas rígidas que ocultavam o corpo, começava a perder popularidade no final dos anos 1980. Surgia uma nova clientela rica, vinda do mercado financeiro, do petróleo e suas compradoras do Oriente Médio. O dinheiro antigo europeu já não era mais predominante nem era o alvo principal ali.

Gianni foi um dos principais estilistas a perceber essa transformação e refletir isso em suas criações. Ele partiu dos ombros poderosos daquela década maximalista, e trouxe materiais mais leves e fluidos, como a seda e o jérsei, inaugurando uma nova sensualidade, com a estamparia extravagante e cores vibrantes. Vestir Versace passou a ser afirmação de pertencimento e uma expressão de compreensão (e propriedade) do novo código de sucesso, com as peças imediatamente reconhecíveis. 

Por nove temporadas, Gianni reinou soberano, e a mostra traz bem isso, essa ascensão, por meio dos trechos dos desfiles, que o público assiste num grande telão, como num cinema. Impossível não se envolver e se comover – seja pelo modelo de apresentação, seja pela magia da passarela e pela força das modelos, evidenciando as supermodels, que ele contribuiu e muito para consagrar em seu tempo.

A mostra deixa um gosto de quero mais, e abre caminho para a discussão em torno dos próximos movimentos em torno da Versace. Gianni tinha uma personalidade solar, e a marca funcionava em estrutura de gestão familiar.

Donatella e Gianni em 1993
Foto: Ron Galella/Ron Galella Collection via Getty Images



Donatella!

Em 1993, ele foi diagnosticado com câncer no ouvido, o que o afastou progressivamente da liderança ativa na grife. Quatro anos depois, sua morte brutal, em um crime que chocou o mundo da moda, transformou a irmã mais nova, Donatella, de vice-presidente e consultora artística em responsável por reconstruir, com visão estratégica e emocional, o império que Gianni fund