Com uma mochila a tiracolo, Deborah Colker deixa o Teatro Sérgio Cardoso em São Paulo após uma apresentação de Remix. Apenas algumas pessoas notam a presença da renomada coreógrafa e bailarina, que ainda se destaca ao tocar piano durante o espetáculo.
O espetáculo Remix retorna ao Rio de Janeiro neste domingo (11/12) e ficará em cartaz até o início de novembro. Nele, Deborah revisita os 32 anos de sua companhia – uma das mais renomadas e premiadas do Brasil – trazendo trechos de quatro obras marcantes: Vulcão (1994), Rota (1997), 4×4 (2002) e Belle (2014). “Não é algo comum para mim, pois sempre criei espetáculos inteiros”, comenta à ELLE.
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Roda, uma coreografia de 1997 em que os dançarinos se movimentam dentro de um círculo de cinco metros de diâmetro. Foto: Divulgação
O palco conta com a participação de 16 bailarinos e uma infinidade de equipamentos, como 90 vasos e uma roda com cinco metros de diâmetro, que são elementos cenográficos destacados em duas das suas coreografias mais conhecidas.
Essa proposta não é nova na trajetória da companhia, que já havia revisitado outras coreografias em Mix (1995) e em Vero,de 2016, mas possui suas razões. “Desde o ano passado, venho enfrentando desafios pessoais que me forçaram a olhar mais para dentro do meu lar. Minha família e a companhia são tudo para mim”, relata a coreógrafa.
No mês de março, Theo Colker, neto de Deborah, faleceu aos 14 anos devido à epidermólise bolhosa, uma doença rara que causa feridas e bolhas na pele. Essa situação inspirou o espetáculo da companhia em 2021. A coreógrafa expressou anteriormente que “Cura não é apenas sobre o Theo, mas sobre as transformações que seu nascimento trouxe para mim”. Além disso, em 2024, Toni Platão, seu esposo e cantor, sofreu um AVC e está em processo de recuperação.
Deborah conversou com a ELLE enquanto aguardava antes de um dos ensaios de
Remix.
Antes da conversa ela pediu licença para deixar o celular próximo a ela por conta da recuperação do marido.
Vasos é uma coreografia criada em 2002 onde os bailarinos têm um espaço restrito para se movimentar. Foto: Divulgação
Como foi chegar a esse novo formato do espetáculo? Imagino que selecionar esses trechos tenha sido um desafio. Quais foram suas diretrizes?
Foi um processo desafiador devido à longa história envolvida. Porém era algo necessário. Eu estava passando por um período complicado na minha vida. Foi bom voltar meu olhar para essa trajetória repleta de espetáculos e entender como escolhi cada um deles. Cada cena pertence a uma obra completa com sua própria estética. Portanto, não era possível simplesmente extrair partes isoladas. Avaliamos as possibilidades tanto técnicas quanto dramáticas. Precisávamos desenvolver uma narrativa que fizesse sentido tanto para nós quanto para o público. Não estou acostumada a trabalhar dessa forma; sempre criei peças novas completas.
“Sou alguém que acolhe todos os estilos de dança; todos são bem-vindos.”
Revisitar essas obras trouxe novas percepções sobre sua própria arte e sobre a companhia? Como foi essa experiência? Teve um tom nostálgico?
Na verdade, foi pouco nostálgico porque trouxe significados que talvez eu não tivesse percebido antes. Há conceitos da dança contemporânea que foram fundamentais no desenvolvimento do meu trabalho e da companhia – peso, equilíbrio e desequilíbrio, volume, dinâmica e geometria. São termos que eu não utilizava há algum tempo e eles ajudam os dançarinos a expressar melhor o que significa dançar contemporaneamente. Todos os estilos são importantes no meu trabalho; atualmente nossa companhia pratica balé, dança urbana, contemporânea e yoga. Cada aula é valiosa para aprimorar o corpo. Outra característica constante no meu trabalho é como movimento se relaciona com espaço; tanto em Rota, quanto em “Vasos”, esses elementos eram essenciais. Hoje em dia participei do projeto Sagração (2024), onde minha principal referência foi a música de Stravinsky.
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Você acredita que o DNA da companhia se alterou ao longo dessas três décadas?
Eu sinto que houve transformação nesse tempo todo. Um marco significativo para mim foi com o espetáculo Nó, lançado em 2005; ali ocorreu uma mudança na dramaturgia das minhas obras. Com o passar dos anos e as experiências vividas na vida pessoal, percebi a necessidade de trazer significados mais profundos às minhas criações, buscando me conectar com a alma humana e seus mistérios. Depois veio Cruel, em 2008; nada mais cruel do que confrontar-se consigo mesmo – trabalhei bastante com espelhos nesse contexto. Em seguida, surgiu minha vontade de me aproximar da literatura; adaptei Evguêni Oniéguin (de Aleksandr Púchkin) no espetáculo Tatyana (2011) e também A bela da tarde (de Joseph Kessel) no espetáculo Belle (2014). Tentei incorporar narrativas já existentes à dança ao trazer personagens ao palco ou traduzir a poesia sem personagens como fiz em Cão sem plumas (2017). A relação entre poesia, dança e música revela uma afinidade única nas abstrações criativas diferentes das narrativas tradicionais com personagens. Isso representa desafios distintos comparado ao início dos anos noventa quando minha abordagem central era movimento e espaço; no entanto, mantenho minha convicção – ou talvez necessidade – de integrar as questões contemporâneas à dança; sempre busquei trazer temas atuais ao palco.
“I’m often tired of myself; I’m too restless.”
Você teve experiências marcantes como dirigir OVO, espetáculo do Cirque du Soleil,
coreografar a abertura dos Jogos Olímpicos no Rio (2016) ou criar óperas para o Metropolitan Opera House.
Como isso impactou seu trabalho na companhia? Você retornou diferente desses grandes projetos?
Essas experiências me transformaram muito; aprendi bastante através desses desafios. Frida – El último sueño de Frida y Diego (sua segunda ópera), estreará em maio de 2026. A primeira foi Ainadamar (2022), cuja produção exigiu muito esforço mesmo já vindo do universo musical anterior à dança. Trabalhar com Cirque du Soleil foi incrível! Ao chegar lá pensei “Como vou sobreviver aqui? Como posso manter minha essência?” Mas percebi rapidamente que fui convidada para ser quem sou; então precisei absorver conhecimento enquanto permanecia fiel às minhas características pessoais. Aprendi muito sobre aceitar novos sistemas diferentes dos meus próprios enquanto mantive diálogos construtivos quando discordava deles.
É gratificante retornar à companhia onde tudo começou junto aos meus bailarinos e João Elias (dono executivo da companhia). Estou empolgada com futuras colaborações com o Metropolitan Opera House..
<b>Você possui autocrítica rigorosa? Existe pressão interna para sempre inovar?
Isto está mudando?</strong>
Isto está mudando?Isto está mudando?
<span style=“-weight:bold;font-size:”0”><b> ; “Eu nunca tive essa necessidade intensa por inovação constante.
O desejo é melhorar continuamente,” explica Deborah.
“Se já fiz algo antes qual seria razão para me repetir? Às vezes fico cansada até mesmo comigo mesma porque sou extremamente inquieta.
Quando surgiu ideia Remix num momento particular devido aos eventos pessoais envolvendo Toni eu disse ao João Elias:
‘Não podemos continuar fazendo sempre as mesmas coisas…’ Isso mostra amadurecimento da minha parte,
talvez se fosse há alguns anos atrás eu teria enlouquecido diante dessa situação.
Há momentos em nossas vidas onde temos aceitar fragilidades.
Sempre busco superação constante.
Ao chegar aqui neste teatro observei detalhes como iluminação ainda altero aspectos desse espetáculo.
A estreia ocorreu abril passado mas continuo ajustando tudo conforme necessário.
Sou exigente comigo mesma assim como sou rigorosa com equipe coletiva
mas percebo isso saudável embora por vezes posso exagerar
Ao mesmo tempo existem outras prioridades vitais.
Sou mãe avó amiga além diretora!
Adoro surpresas caminhando por novas direções demandando muito tempo investido especialmente quando criamos espetáculos!
Esse processo pode levar três ou quatro anos! Produzir óperas demanda dois anos
Já um Cirque du Soleil exige quatro anos!
Requer dedicação total absorvendo todas áreas envolvidas.
Devemos nos manter aprendendo evoluindo tornando melhores versões nós mesmos!.
<b>Informações sobre Remix:</b>
Mantenha-se informado nas datas entre outubro/11 até novembro/02 na Cidade Artes localizada Rio Janeiro.
Apresentações ocorrem segundas sábados domingos às quatro horas da tarde além quintas sextas vinte horas.
Ingressos variam entre R$25-R$200.</b>
