Na minha primeira conversa aberta sobre o desejo de ser mãe, completei a frase com “mas não imagino ter um filho com uma mulher”. Estava em uma viagem com amigos no Maranhão e havia acabado de sair de um relacionamento intenso e complicado com uma mulher. Me via como alguém sem preconceitos, “totalmente desconstruída”. Com 30 anos e algumas experiências amorosas com mulheres, como poderia ter preconceito comigo mesma? Mais tarde, ao me deitar após um dia repleto de conversas e risadas com amigos de longa data, refleti: “Se há alguém que teria coragem de ter um filho com uma mulher… sou eu”.
Anos se passaram, e hoje sou mãe de um lindo menino de 5 anos. Ele tem duas mães: Dani e Laura. Nesta reportagem, vou compartilhar nossa trajetória, demonstrando que nossas famílias não apenas existem, mas são numerosas e diversas.
Laura, Martin e Dani Arrais.
Foto: Juliana Pacheco
Apesar do reconhecimento do casamento homoafetivo no Brasil desde 2013, ainda é difícil encontrar dados concretos sobre nós e nossas famílias. Muitos casais optam por viver em união estável sem registro formal e há também a subnotificação causada por medo e estigmas sociais. Dados recentes da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-BR) indicam que entre 2021 e 2023, 50.838 crianças foram registradas por casais homoafetivos no Brasil.
Nos identificamos nas representações que vemos. Atualmente, as redes sociais mostram famílias compostas por duas mães, algo que não era visível para os millennials que cresceram nos anos 1990 e 2000. Naquela época, referências de mulheres lésbicas na cultura eram quase inexistentes — felizmente isso mudou! Hoje temos Ludmilla e Brunna Gonçalves, mães da Zuri; Nanda Costa e Lan Lahn, mães da Kim e da Tiê; Márcia Castro e Nanda Oliveira, mães da Maria Flor.
Entretanto, lembro-me das personagens lésbicas humilhadas em uma novela chamada Torre de Babel em 1998. Ser lésbica já era complicado; imaginar ser mãe era algo ainda mais distante.
Quando Cássia Eller faleceu em 2001, a situação gerou um grande burburinho na mídia. Ela era uma das mães do Chicão — que hoje é o cantor Chico Chico — ao lado de Maria Eugênia Vieira Martins, que lutou pela guarda do filho. A decisão judicial foi considerada ousada na época ao reconhecer o direito dela à maternidade mesmo sem ser a gestante.
Esse episódio impactou muitas meninas descobrindo sua sexualidade. “Cássia Eller foi a pioneira nessa questão para mim”, afirma Milena Cabral, diretora de arte aos 34 anos e mãe da Gal, de apenas 4 anos junto com Gabriela Oliveira.
Keka Ribeiro, coordenadora de projetos educacionais aos 39 anos, compartilha essa referência mas ressalta suas ambivalências: “Era uma história linda recheada de desafios. Era contada sob a ótica das dores daquela família e dos questionamentos acerca dos direitos fundamentais”, lembra ela. Keka é diretora executiva do Coletivo Dupla Maternidade e casada com Jurah Di Anin, educadora ambiental aos 48 anos. “Cássia e Maria Eugênia sempre serão grandes referências para famílias compostas por duas mães pelo amor que dedicaram à maternidade e pelas batalhas enfrentadas para garantir seus direitos”, completa.
Mariana Quintanilha, executiva de marketing aos 44 anos e mãe dos gêmeos Stella e Gabriel, de nove anos, acrescenta personagens da série The L Word à sua formação cultural. “Lembro do casal que conseguiu registrar a filha no nome das duas. Mas tudo parecia tão distante; não conhecia ninguém na vida real vivendo algo parecido.”
A escassez de referências também afetou Joyce Ribeiro, gestora pública aos 41 anos casada com Priscila Annunciato. Elas são mães de Alice e Gael, com idades de sete e cinco anos respectivamente. “Não conhecíamos outras lésbicas com filhos ou famílias próximas que tivessem adotado. Fomos desbravando esse caminho sozinhas. Embora isso cause insegurança também fortalece você a criar seu próprio percurso.”
Ninguém pergunta se uma lésbica quer ser mãe
Enquanto mulheres heterossexuais enfrentam pressão para formar família (e injustamente), raramente essa pergunta é feita a casais femininos. Essa diferença ressoa de formas distintas em cada caso.
“O desejo pela maternidade não surgiu devido à pressão social; pelo contrário, veio quase silenciosamente. Ninguém pergunta a duas mulheres se querem ter filhos”, observa Joyce.
Keka relembra como essa ausência pesou sobre ela também. “Sempre sonhei em ser mãe; isso sempre foi meu maior desejo na vida. Mas quando me assumi lésbica ouvi da minha mãe a seguinte frase: ‘você vai ficar com mulheres e desistir desse sonho?’. Foi necessário muito esforço emocional para manter esse desejo vivo.” Ela detalha como começou a planejar sua maternidade junto à esposa Jurah Di Anin em um ambiente mais reservado devido ao medo das reações alheias.
A família Maíra Libertad.
Foto: Steh Nobre
Maíra Libertad é enfermeira obstetra aos 45 anos sempre desejou ser mãe. “Na infância dizia que teria cinco filhos! Nunca consegui imaginar minha vida sem eles em algum momento futuro; contudo os anos passavam sem parecer haver um bom momento para isso.” Apesar do desejo constante pela maternidade não era clara a forma como isso poderia acontecer sendo lésbica; sabia que era possível gestar mas faltava conhecimento sobre como fazê-lo efetivamente.”
Para Milena essa ausência foi libertadora pois teve liberdade para traçar seus planos sem interferências externas.
Eu compartilho dessa vivência íntima junto à Laura sobre o desejo pela maternidade; enquanto algumas mulheres se sentem pressionadas pelas expectativas sociais eu queria ser vista nesse aspecto… O que não aconteceu na prática. Minha família não mencionava relacionamentos; parecia até que pensavam ‘está tudo bem ser lésbica desde que você não fique falando disso por aí’. Ao olhar para trás vejo valor nesse caminho reservado; o processo já traz bastante ansiedade então evitar as perguntas externas foi benéfico.
Como o desejo se torna realidade
Com o acesso à informação hoje mais facilitado do que antes quando Mariana e Júlia Gutnik começaram sua jornada rumo à maternidade ainda havia muitas incertezas. “Conseguimos o contato do médico responsável pela FIV [fertilização in vitro] através de uma amiga heterossexual; na primeira consulta ficamos nervosas acerca da reação dele diante da nossa situação; por sorte ele tinha parentes próximos LGBT+. Fomos o primeiro casal feminino atendido naquela clínica.”
Keka recorda como houve muito diálogo entre elas durante essa jornada enriquecedora para amadurecer a ideia da maternidade através da adoção ou inseminação artificial ou caseira até chegarem ao ponto onde estavam confortáveis em buscar essas opções concretas.
As redes sociais desempenharam um papel essencial nesse processo para Milena e Gabriela: “Ver pessoas vivendo experiências similares faz eu não me sentir tão isolada — as questões enfrentadas na dupla maternidade diferem significativamente das vivências heteronormativas.”
Jurah e Keka Ribeiro.
Foto: Juliana Pacheco
Joyce e Priscila sabiam desde o início que optar pela adoção seria um caminho desafiador: “Adoção nunca foi um plano B; foi nossa escolha desde o princípio.” Ela menciona como se prepararam estudando leis pertinentes ao processo antes mesmo da chegada da criança que mudaria suas vidas completamente após um telefonema inesperado anunciando a possibilidade imediata dessa nova realidade familiar.
Em seguida voltaram às buscas pela adoção: “Pensamos até em ter três filhos mas fomos interrompidas pela pandemia“ — contudo foi nesse período crítico que seu tão esperado filho chegou até elas completando sua família atual antes mesmo das novas tentativas serem concluídas.
Na minha relação com Laura ela propôs rapidamente nosso desejo por filhos enquanto eu hesitava achando necessário fazer cursos ou pós-graduação antes dessa decisão — seria talvez resultado do planejamento excessivo ou insegurança sobre dar esse passo adiante! Optamos então pela FIV a qual teve sucesso imediato surpreendendo-nos ambas!
A curiosidade alheia (e seus limites)
Existem múltiplas maneiras pelas quais duas mulheres podem tornar-se mães (veja mais em:Caminhos para a maternidade de mulheres lésbicas). Em comum há sempre o desafio da curiosidade alheia relacionada à genética dos filhos.
“Ah ele se parece tanto com mamãe X” ou “ela tem os mesmos trejeitos da mamãe Y”. Se decidirmos nos estressar cada vez que ouvimos isso podemos ficar grisalhas rapidamente!
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